Ausência Paterna: O Impacto em Filhas de Mães Solo

Um estudo da PUC-Rio revela os impactos da ausência paterna na vida de filhas criadas por mães solo. Entenda a diferença entre ausência e abandono e como essa realidade afeta a percepção de si e os relacionamentos.

Muitas mulheres no Brasil enfrentam o desafio de criar os filhos sozinhas. A ausência paterna é uma realidade para milhões de famílias, e entender como essa condição afeta as filhas é crucial. Um estudo recente da PUC-Rio investigou exatamente isso, revelando os impactos profundos que a falta do pai pode causar na vida dessas jovens.

Uma jovem de 28 anos, participante da pesquisa, relatou o peso dessa experiência. Ela disse que a ausência paterna provocou “várias coisas” nela, levando-a à terapia por três anos. Com o tempo, ela entendeu que a falta do pai pode trazer danos de diversas formas. Este cenário não é isolado; ele reflete a realidade de muitas brasileiras. Os lares chefiados por mães solo crescem no país, segundo o Dieese. Até o final de 2022, eram mais de 11 milhões de famílias nessa configuração. A maioria delas era liderada por mulheres negras.

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Diante desse panorama, nossa equipe do Laboratório de Estudos em Família e Casal, do Departamento de Psicologia da PUC-Rio, decidiu investigar a fundo. O objetivo era entender o que acontece, do ponto de vista psicológico, quando a figura paterna está ausente desde cedo e como essa ausência é vivida pelas filhas. Para isso, o estudo contou com seis mulheres jovens, entre 21 e 29 anos, todas criadas por mães solo no Rio de Janeiro e com pouco ou nenhum contato com seus pais.

A escolha por uma pesquisa qualitativa permitiu explorar cada história individualmente. Assim, foi possível acessar os sentimentos e as interpretações que dificilmente aparecem em dados numéricos. A partir das narrativas dessas participantes, os pesquisadores buscaram compreender não só a ausência paterna como um fato, mas seus efeitos subjetivos. Ou seja, como ela é sentida, interpretada e processada ao longo da vida de cada uma. Os relatos deixam claro que a falta do pai raramente é vista apenas como distância física.

Ausência Paterna: A Diferença entre Estar Longe e o Abandono

Um dos pontos principais que surgiram nas entrevistas é a distinção entre ausência e abandono. Embora as duas experiências possam estar ligadas, elas não são a mesma coisa. O abandono pode ser entendido como uma recusa do pai em exercer a parentalidade. Por outro lado, a ausência é a condição física de não estar presente. Portanto, a pesquisa sugere que a ausência física é o começo, e o abandono se torna o efeito emocional dessa falta.

Cada trajetória, no entanto, apresenta seus próprios detalhes. Em algumas histórias, as participantes nunca chegaram a conviver com o pai. Elas afirmavam não sentir exatamente “falta” dele, justamente porque não havia lembranças ou momentos compartilhados. Ainda assim, a experiência da ausência paterna podia surgir em momentos sociais específicos. Por exemplo, elas se comparavam com outras famílias. Ou, em situações escolares, esperavam a figura do pai.

Em outras narrativas, o afastamento aconteceu de forma gradual. O pai, no início, estava presente de maneira irregular e, com o tempo, a distância passou a ser percebida como um abandono emocional. Nesses casos, a dor não vinha apenas da ausência física, mas da sensação de não ser importante para o pai, da percepção de desinteresse. Uma das mulheres descreveu que, conforme crescia, começou a entender que não era só uma questão de distância. Era também uma falta de cuidado e atenção.

Os Efeitos da Ausência Paterna na Percepção de Si

A ausência paterna, portanto, não se resume a um vazio. Ela ganha o significado de abandono, especialmente quando as filhas sentem que não foram escolhidas ou desejadas. Essa sensação pode gerar impactos duradouros na forma como elas se veem e se relacionam com o mundo. Por exemplo, a dificuldade em confiar nas pessoas. Ou, ainda, em construir relacionamentos estáveis. Isso pode ser um reflexo dessa experiência inicial.

O estudo da PUC-Rio destaca a importância de olhar para essas histórias com atenção. Entender como a ausência paterna é vivida e elaborada permite identificar os desafios enfrentados por essas mulheres. Além disso, a pesquisa ajuda a pensar em formas de apoio para elas e suas mães. Muitas vezes, essas mães assumem sozinhas a responsabilidade de criar e educar. É fundamental reconhecer a complexidade dessa realidade e oferecer o suporte necessário para que essas filhas possam superar os desafios e construir suas próprias histórias de vida com mais segurança e bem-estar.