Transplante de porco: entenda a escolha da espécie para humanos

A ciência busca no transplante de porco uma solução para a falta de órgãos. Entenda por que a espécie suína é a mais promissora para xenotransplantes em humanos, suas semelhanças biológicas e a facilidade de manejo em laboratório.

A falta de órgãos para transplante é um desafio global. Contudo, a ciência avança em busca de novas soluções, e uma delas envolve o transplante de porco. Esta técnica, chamada xenotransplante, consiste em transferir órgãos entre espécies diferentes. Recentemente, o Brasil deu um passo importante com o nascimento de Boreal, o primeiro porco clonado no país. Este animal nasceu no Instituto de Zootecnia da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (IZ/APTA), em Piracicaba (SP).

Apesar de não ser o animal mais parecido fisicamente com os seres humanos e de estar distante na cadeia evolutiva se comparado a primatas, o porco é hoje a espécie mais promissora para esta finalidade. Portanto, entender o porquê dessa escolha é fundamental para compreender o futuro da medicina.

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Por que o transplante de porco se tornou uma realidade?

A escolha do porco para o xenotransplante não é aleatória. Em 2023, por exemplo, um veterano da marinha dos Estados Unidos recebeu um coração de porco em uma cirurgia realizada na Universidade de Medicina de Maryland. Ele sofria de insuficiência cardíaca. Um ano depois, em Boston, outro paciente recebeu um rim suíno. Além disso, em 2021, uma equipe de Nova York transplantou um rim de porco em uma pessoa com morte cerebral. Estes casos demonstram o potencial da espécie.

Luciano Brito, biólogo geneticista da Universidade de São Paulo (USP) e um dos autores da pesquisa que clonou o porquinho Boreal, explica os motivos. Ele cita semelhanças anatômicas e fisiológicas com os seres humanos. A facilidade de manejo também conta pontos importantes.

Semelhanças que impulsionam o transplante de porco

Simone Raimundo, pesquisadora do Instituto de Zootecnia (IZ) da APTA, reforça essas ideias. Ela atua diretamente no estudo e aponta uma série de compatibilidades biológicas e físicas entre porcos e humanos. Os órgãos dos suínos, por exemplo, são muito parecidos com os nossos. Eles apresentam semelhanças em termos de pesos e medidas.

O funcionamento desses órgãos também se aproxima bastante do humano. Ademais, os órgãos do porco atingem o tamanho ideal para o transplante em menos tempo. Dessa forma, a ciência já utiliza o porco em outras áreas da saúde humana. Válvulas cardíacas suínas são usadas em cirurgias. A insulina extraída do pâncreas suíno trata diabéticos. Além disso, a pele do porco ajuda em casos de queimaduras graves. Assim, o transplante de porco se beneficia de um histórico de uso médico.

A facilidade no manejo dos animais

O suíno oferece outras vantagens importantes. Luciano Brito comenta que a espécie reproduz muito bem. Por ser domesticado há muito tempo, é um animal fácil de criar. Ele é dócil e se adapta bem ao ambiente de laboratório. Essas características são cruciais para a produção de órgãos em larga escala. A capacidade de criar e manejar esses animais de forma controlada permite a padronização e a segurança necessárias para o desenvolvimento do xenotransplante. Consequentemente, a logística para o transplante de porco se torna mais viável e eficiente.

Primatas: por que não são a escolha para o transplante de porco?

Quando pensamos em semelhança evolutiva, os primatas são animais bem próximos dos seres humanos. No entanto, Luciano Brito explica que não existem estudos que mostrem viabilidade para fazer o xenotransplante com eles. Há desafios éticos complexos e questões biológicas ainda não resolvidas. O manejo de primatas em laboratório também é mais difícil e caro.

Por isso, a ciência focou nos porcos como a melhor alternativa. Portanto, apesar da proximidade genética, o transplante de porco é a via mais promissora atualmente.

Os avanços no transplante de porco representam uma esperança real para milhares de pessoas na fila de espera por um órgão. A combinação de semelhanças biológicas, facilidade de manejo e o histórico de uso médico faz dos suínos a espécie ideal para essa revolução na medicina. Com pesquisas contínuas e o desenvolvimento de técnicas como a clonagem, o futuro dos transplantes promete ser mais acessível e eficaz. A jornada é longa, mas os passos dados até agora mostram um caminho claro para superar a escassez de órgãos e salvar vidas.