Abandono afetivo: filha processa pai por ausência na vida

A corretora de imóveis Vitória Schroder, de 24 anos, processou o pai por abandono afetivo. Sua história destaca a ausência paterna desde o nascimento e as consequências emocionais, além dos avanços na legislação brasileira sobre o tema.

A falta de um pai na infância pode deixar marcas profundas. Para Vitória Schroder, de 24 anos, essa ausência se transformou em uma ação judicial. Ela processou o próprio pai por abandono afetivo, buscando reconhecimento por uma vida inteira sem sua presença. A história de Vitória mostra como a lei brasileira tem avançado para amparar filhos que sofrem com a omissão paterna ou materna, indo além do suporte financeiro. Entender os impactos e os direitos relacionados ao abandono afetivo é fundamental para muitas famílias no Brasil.

Vitória nunca conheceu o pai. Sua mãe contou que, ao engravidar, ele expressou não querer filhos. No entanto, ele a levou ao cartório, fez o registro e, desde então, desapareceu. “Eu não tenho memórias dele porque eu não o conheço, eu nunca o vi”, relata Vitória. Para ela, o registro civil nunca foi o suficiente; faltou a participação na sua vida.

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As Marcas da Ausência e o Abandono Afetivo

A ausência paterna se tornava mais evidente em momentos que, para outras crianças, eram de celebração. Em datas comemorativas, como o Dia dos Pais, ou em apresentações escolares, Vitória via outras crianças com seus pais e não entendia por que o seu não estava ali. Especialistas explicam que essa percepção costuma surgir na infância.

“Quando a criança compreende que tem alguém faltando, ela começa a se comparar com os outros e a se questionar”, afirma a psicóloga clínica e forense Andréia Calçada. Vitória foi criada pelos avós maternos, pois sua mãe faleceu quando ela ainda era pequena. Mesmo com o carinho e cuidado da família, as marcas do abandono afetivo permaneceram.

Os Impactos Emocionais do Abandono Afetivo

Com o tempo, o impacto apareceu na forma como ela se via e se relacionava com o mundo. “Eu cresci tirando notas boas porque, para mim, se eu não fosse perfeita, todo mundo iria me abandonar também, como se eu não valesse a pena, sabe?”, explica. A psicóloga Glícia Brasil esclarece que esse tipo de comportamento é comum em casos de abandono. “Há medo de rejeição, ansiedade e dificuldade de acreditar que pode ser amado”, aponta a especialista. Portanto, as consequências emocionais são profundas e duradouras.

A Busca Pessoal e Judicial por Reconhecimento

Já adulta, Vitória tentou, mais uma vez, se aproximar do pai. Essa tentativa, contudo, não teve sucesso. “Uma última coisa que eu me recordo dele é de quando eu tentei entrar em contato diversas vezes e ele simplesmente me bloqueou”, conta. Essa rejeição direta reforçou a dor da ausência.

Aos 18 anos, ela decidiu buscar seus direitos na Justiça, entrando com um processo por abandono afetivo. O pai foi condenado a pagar uma indenização de R$ 150 mil, mas recorreu da decisão. Apesar da vitória judicial, Vitória diz que o processo não preenche o vazio deixado pela falta do pai. “Ajuda, mas não é tudo. Eu queria ter o meu pai”, desabafa. Por exemplo, a indenização financeira não substitui o vínculo emocional perdido.

O Que Diz a Lei Sobre Abandono Afetivo

Para os especialistas, a indenização não tem como objetivo substituir o vínculo afetivo. Em vez disso, ela busca reconhecer a falha no dever de cuidado e afeto que todo pai e mãe possuem para com seus filhos. A legislação brasileira passou a permitir esse tipo de ação de forma mais clara a partir de 2025, reforçando que a presença dos pais na vida dos filhos vai além do sustento financeiro. Afinal, o cuidado emocional é tão vital quanto o material para o desenvolvimento saudável de uma pessoa.

Hoje, Vitória tenta ressignificar sua própria história, mas ainda carrega as consequências desse abandono. A sua luta na Justiça, entretanto, serve de exemplo para muitos outros filhos que buscam reparação e reconhecimento pelo impacto do abandono afetivo em suas vidas.