O recente cessar-fogo no Irã trouxe alívio para alguns, mas para muitos iranianos, a pausa nos conflitos externos significa o fortalecimento de um regime que eles temem. Moradores relatam decepção e medo, pois a república islâmica, apesar de perdas importantes na liderança, declara vitória e promete intensificar a repressão interna. A sensação geral é de um trabalho inacabado, com a expectativa de que a situação piore para a população após o cessar-fogo no Irã.
Autoridades iranianas comemoraram o acordo como um triunfo do sistema teocrático. Contudo, essa celebração contrasta com o sentimento de muitos cidadãos. Semanas antes do conflito, o governo já havia reprimido protestos com violência. Agora, grupos de direitos humanos preveem uma escalada na repressão. Eles acreditam que o regime se sente mais forte para agir contra sua própria população.
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Medo e Repressão após o Cessar-fogo no Irã
Um corretor da bolsa de 30 anos, morador de Teerã, expressou seu receio à AFP. Ele disse que uma situação onde a república islâmica se sente vitoriosa não é boa. O homem acredita que o regime ficará mais confiante, matará mais pessoas e manterá a internet cortada. Para ele, tudo deve piorar. Ele pediu anonimato, por medo de retaliações. Além disso, a ofensiva israelense-americana pareceu um “trabalho inacabado”, levando-o a crer que haverá outra guerra em breve.
Simin, professora de 48 anos, também de Teerã, sentiu alívio com o fim dos bombardeios. Ela viveu “aterrorizada” por cinco semanas. No entanto, a permanência da república islâmica no poder a assusta. “Fico feliz por alguns segundos pensando no fim das bombas, mas me assustam as notícias de execuções”, afirmou. Armin, de 34 anos, concorda que, se a guerra terminar com o regime ainda no poder, não haverá benefício para o povo. Ele prevê que as autoridades farão o povo pagar pelas perdas sofridas durante o conflito.
O Impacto do Cessar-fogo no Irã na Liderança
O líder supremo Ali Khamenei morreu logo no primeiro dia do conflito. Ele foi o principal nome entre vários dirigentes mortos nos ataques de Israel e Estados Unidos. Algumas figuras importantes sobreviveram, como o filho dele, Mojtaba Khamenei, apontado como possível sucessor. Contudo, Mojtaba não apareceu em público desde então. Mesmo com as perdas na liderança, a estrutura militar e os mecanismos de repressão do país seguiram funcionando durante a guerra.
Repressão e Censura Pós-Cessar-fogo
Desde o início do conflito, em 28 de fevereiro, o Irã executou sete pessoas. Elas tinham ligações com os protestos de janeiro. Seis delas pertenciam a um grupo de oposição proibido, e uma era um cidadão sueco-iraniano acusado de espionagem para Israel. Centenas de pessoas também foram presas. Organizações não governamentais relatam que muitas foram forçadas a fazer confissões televisionadas. As restrições à internet duram cerca de 40 dias, conforme a empresa Netblocks, que descreve uma “desconexão quase total do mundo exterior”.
Raphael Chenuil-Hazan, diretor-executivo da ONG Ju, declarou à AFP que o regime mostrou ter apenas a repressão como arma contra seu próprio povo. Isso reforça a preocupação de que o fim dos ataques externos leve a uma intensificação da violência interna. A população, portanto, enfrenta um cenário de incerteza e medo, onde a paz externa do cessar-fogo no Irã não se traduz em segurança interna.
