Feminicídios fora de casa em São Paulo atingiram um número inédito no ano passado. Em 2023, 109 mulheres perderam a vida em locais públicos. Isso inclui ruas, lojas, trabalho ou até hospitais. Esse total representa mais de 40% de todos os casos de feminicídio registrados no estado. Os primeiros meses deste ano mostram uma situação parecida. Vinte e quatro dos 57 feminicídios ocorreram fora das residências. Esses números, compilados a partir de dados da Secretaria da Segurança Pública (SSP), acendem um alerta importante sobre a segurança das mulheres em espaços públicos.
Crescimento dos feminicídios fora de casa
Embora a casa ainda seja o lugar onde a maioria dos feminicídios acontece, representando cerca de seis em cada dez casos, os dados recentes mostram uma mudança. Há um aumento da violência contra mulheres em locais públicos. Isso sugere que os agressores estão expandindo o alcance de suas ações para além do ambiente doméstico. Por exemplo, em meses recentes, casos chocantes vieram à tona. Um deles foi o de Tainara Souza Santos, de 31 anos, que morreu após ser atropelada e arrastada por um ex-ficante na Marginal Tietê, em São Paulo. Outros exemplos incluem um homem que atirou na ex-companheira no local de trabalho dela e uma mulher morta a facadas na rua, em Osasco.
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Especialistas que estudam a violência contra a mulher afirmam que ainda é cedo para dizer se isso é uma tendência definitiva. Contudo, os números atuais são um forte sinal de alerta. Eles precisam ser acompanhados com atenção nos próximos anos para entender melhor o cenário.
Agressores e o perigo do rompimento
A pesquisa “Visível e Invisível: a Vitimização de Mulheres no Brasil”, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, aponta quem são os principais agressores. Cônjuges, companheiros, namorados ou maridos são responsáveis por 40% dos casos. Em seguida, vêm os ex-cônjuges, ex-companheiros ou ex-namorados, com 26,8%.
O fim de um relacionamento é um dos momentos mais críticos para a mulher. Após o término da convivência em casa, o agressor muitas vezes começa a procurar a vítima em outros lugares. Isso inclui a escola dos filhos, o local de trabalho ou durante os deslocamentos diários. Essa busca por contato fora de casa pode levar aos feminicídios fora de casa.
O que explica a escalada dos feminicídios fora de casa?
Existem alguns motivos que podem explicar esse aumento dos crimes em espaços públicos. Primeiro, a maior participação das mulheres no mercado de trabalho e na vida pública. Segundo, o crescimento dos crimes digitais, que podem ser um prelúdio para a violência física. Por fim, a atuação de grupos masculinistas também é mencionada como um fator. Além disso, especialistas apontam que pode haver uma subnotificação. Ainda há dificuldade em registrar assassinatos de mulheres fora de casa como feminicídio.
A promotora de Justiça Fabiana Dal’Mas vê o feminicídio em espaço público como uma mensagem. É uma forma de dizer à mulher que aquele lugar não pertence a ela. Esse pensamento se assemelha ao que está por trás do assédio e da importunação sexual em locais como ruas e transporte público. O feminicídio representa o ponto máximo dessa violência. Ele ocorre quando há uma falha grave do Estado, pois é um crime que poderia ser evitado.
