O figurino não é apenas uma roupa na performance “Hiperfabulária Tropical”, de Carmen Jorge. Ele guia a história no palco. Este solo, parte da Mostra Fringe, mostra como a vestimenta pode ser a própria arte. Assim, a roupa deixa de ser um detalhe e se torna o centro da narrativa. A obra ganha um significado extra porque acontece dentro de um ateliê de moda. Este é um lugar diferente para espetáculos de dança e performance.
As apresentações acontecem no Ateliê Luan Valloto. O próprio figurinista abre seu estúdio ao público. A escolha transforma o ambiente de criação em cenário. Desse modo, o local vira uma extensão da própria história contada. A performance não é uma estreia no Fringe. Ela já foi apresentada antes na Casa Hoffmann, um centro importante para a dança contemporânea. Lá, Carmen Jorge desenvolveu parte de sua pesquisa de corpo.
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O Figurino Ganha Vida na Cena
A obra explora corpo, palavra e política. Ela propõe uma experiência de “corpocaos”. Este conceito orienta toda a criação. A inspiração vem do artista José Agrippino de Paula e da bailarina Maria Esther Stockler. A montagem usa o romance PanAmérica, de 1967, como ponto de partida. Este livro é um marco do experimentalismo brasileiro e tem ligação com a Tropicália. A peça questiona ideias culturais e estruturas de poder.
Nesse universo, a roupa não acompanha o corpo. Ela participa dele. O figurino tem a assinatura do estilista Luan Valloto. Ele criou as peças em contato direto com a performer. Valloto explica: “O figurino é uma ferramenta de significado. É difícil ele ser neutro, e isso é bom, pois ele fala junto com a personagem.”
A Criação do Figurino e Suas Referências
O processo de criação começou com a imagem que Carmen Jorge descreveu de si mesma. Ela se via como uma figura entre uma boneca plástica e um androide tropicalista. A partir dessa ideia, o estilista escolheu materiais plásticos, transparências e formas grandes. Essas escolhas realçam o corpo e suas marcas. Com plásticos, transparências e volumes, o figurino de Luan Valloto molda a presença de Carmen Jorge. Ele conduz a história de “Hiperfabulária Tropical”.
A construção visual da performance mistura referências da Tropicália com a estética futurista. Ela também inclui elementos da cultura pop. Valloto conta que as escolhas de formas e materiais conversam com as tendências atuais da moda. Assim, o figurino remete ao passado e aponta para o futuro ao mesmo tempo. Ele afirma: “A questão do tropicalismo e da cultura pop fazia muito sentido para a gente, mas em uma linha mais futurista, quase robótica.”
As peças foram pensadas para acompanhar a técnica de popping. Carmen Jorge usa essa técnica no palco. Ela faz contrações musculares rápidas que exigem roupas funcionais e resistentes. Além disso, as transparências e sobreposições mostram o corpo e as tatuagens da artista. Isso transforma a roupa numa extensão da própria pele. O ateliê, portanto, não é só um cenário. Ele se torna um gesto de arte, onde o figurino é o principal ator da cena.
