O lugar onde uma pessoa nasce, cresce e envelhece pode influenciar a saúde do seu cérebro de um jeito mais profundo do que se pensava. Um estudo internacional recente mostra que o ambiente tem um papel central no ritmo do envelhecimento cerebral. A pesquisa, publicada na revista Nature Medicine, analisou dados de quase 19 mil pessoas em 34 países. Ela concluiu que o “exposoma” — ou seja, o conjunto de tudo que uma pessoa experimenta na vida — explica o envelhecimento cerebral acelerado. Esse impacto é muito maior que o de fatores vistos de forma isolada. Além disso, a soma dessas experiências aumenta em até nove vezes o risco de o cérebro envelhecer mais rápido. Isso está ligado a problemas de memória e demência.
O que é o ‘Exposoma’ e como ele age na saúde do cérebro
O termo “exposoma” ainda não é amplamente conhecido fora da ciência, mas está ganhando força para explicar como as doenças surgem. Helder Picarelli, neurocirurgião do Icesp e pós-doutor pela USP, explica que o exposoma inclui tudo a que o corpo é exposto durante a vida, mesmo antes do nascimento. Isso abrange fatores do ambiente, como poluição e clima. Também entram na conta fatores sociais, como a renda, a educação e as relações pessoais. Há ainda os fatores comportamentais, como a alimentação e o sono. E não para por aí: elementos urbanos e políticos, como acesso à saúde e condições de trabalho, também fazem parte. Esta ideia muda a forma tradicional de ver a saúde, que se focava apenas na genética ou em hábitos de cada um. Se os genes mostram o potencial biológico, o exposoma é o conjunto de influências que molda como esse potencial se desenvolve. Isso ajuda a entender por que pessoas com genes parecidos podem ter vidas e saúdes bem diferentes.
Leia também
O impacto combinado no Envelhecimento Cerebral
Um ponto importante do estudo é que não é apenas uma exposição sozinha que acelera o envelhecimento cerebral. A combinação entre elas, e a forma como interagem, é o que realmente importa. Modelos que consideraram os fatores juntos foram muito melhores para explicar o fenômeno do que aqueles que olhavam para variáveis separadas. A explicação melhorou em mais de 15 vezes. Isso quer dizer que coisas como a poluição do ar, o estresse constante, a desigualdade social e o estilo de vida não agem de forma isolada. Eles podem aumentar o efeito um do outro. Esse efeito combinado, chamado de sinérgico, ajuda a entender por que grupos de pessoas expostas a várias situações difíceis têm um risco maior de envelhecimento cerebral precoce. Este risco é maior do que a simples soma dos fatores sugeriria.
Como o ambiente mexe com o cérebro
Alguns desses efeitos já têm explicações biológicas claras. A poluição do ar, por exemplo, está ligada a processos de inflamação contínua e a um desequilíbrio chamado estresse oxidativo. Estes são mecanismos que podem danificar as células e acelerar o desgaste do cérebro. O estudo reforça a ideia de que a saúde do cérebro não depende só de fatores internos. Ela é muito influenciada pelo mundo ao nosso redor. Entender o exposoma abre caminho para novas estratégias de saúde pública. Estas estratégias podem focar em melhorar o ambiente e as condições de vida para toda a população. Assim, podemos prevenir o envelhecimento cerebral precoce de forma mais eficaz.
