Houve um tempo em Campinas onde a fé de uma pessoa gerou uma agressão. Para transformar essa dor em algo positivo, assim, nasceu a Lavagem da escadaria da Catedral de Campinas. Esta cerimônia, que hoje é um patrimônio da cidade, acontece há mais de quatro décadas, marcando o Sábado de Aleluia e fortalecendo o respeito entre as diversas crenças. Ela mostra como um ato de intolerância, portanto, se transformou em um símbolo de união e resistência.
A Origem da Cerimônia em Campinas
A história da Lavagem da escadaria da Catedral de Campinas começou há 41 anos. Nengua Dya Nikisi, conhecida como Mãe Dango, trabalhava na limpeza da cidade. Um dia, contudo, ela foi agredida em frente à Catedral Metropolitana. O motivo? Ela usava um fio de conta, símbolo de sua fé no Candomblé. Mãe Dango tinha acabado de iniciar seus rituais.
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“Eu estava com meu fio de conta e as pessoas me xingaram de feiticeira. Fiquei muito brava e me machuquei com a situação”, conta Nikisi.
Ela dividiu essa experiência com suas amigas. Em seguida, uma delas, Mameto Oya Corajacy, pensou em uma forma de reagir. “Quando encontrei Dona Jaci e contei o que aconteceu, ela me perguntou: ‘mãe, vamos fazer alguma coisa?’. Mas o que poderíamos fazer?”, lembra Corajacy. Assim sendo, a ideia surgiu: “Vamos fazer a lavagem da escadaria. Isso só existe na Igreja do Bonfim, em Salvador. Podemos trazer para cá. Era perto da Quaresma, por isso fazemos no Sábado de Aleluia”, explica Mãe Dango. Além disso, Corajacy viu na cerimônia uma forma de agradecer a Campinas por recebê-los. “Eu senti que devia trazer essa lavagem como um presente para as pessoas de Campinas. É uma troca, por eu ser tão bem recebida aqui.”
O Significado por Trás do Ritual
A Lavagem da escadaria da Catedral de Campinas é uma tradição de comunidades do Candomblé e de outras religiões de matriz africana. O ritual, por exemplo, honra a memória do povo Bantu, etnia da qual muitos negros escravizados no Brasil faziam parte.
Dessa forma, na escadaria, as pessoas derramam água de cheiro. Elas esfregam cada degrau com vassouras, dedicando o ato “aos pés de Nossa Senhora da Conceição”. Ademais, esta cerimônia vai além do aspecto religioso. “Além da fé, a lavagem traz um momento de muita cultura popular”, explica Mãe Dango.
Por conseguinte, as flores brancas e a água têm um significado importante. “Quando alguém recebe uma flor, a pessoa quer que você floresça as coisas boas que tem dentro de si. Em suma, a flor representa a vida. A água simboliza nosso nascimento, nossas energias. As pembas representam o fogo da purificação. As cantigas de fé e esperança são como o ar”, detalha.
Patrimônio e Resistência Cultural
Finalmente, em 2022, a Lavagem da escadaria da Catedral de Campinas virou patrimônio imaterial da cidade. Esta é uma conquista importante. Dessa maneira, a cerimônia une diversas religiões em um espaço tradicionalmente católico. A escolha do local, a Catedral, reforça a valorização. Ela mostra a força da resistência contra a intolerância. É um momento de celebrar a diversidade e a união. A lavagem se tornou um evento que Campinas abraça, um símbolo de respeito e de paz. Em conclusão, a cada ano, a cerimônia reforça a mensagem de que a fé de cada um merece ser respeitada.
